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17.12.12

Temos de aplicar os princípios republicanos à nova realidade, diz 'cérebro' de Bush

Ele foi chamado de "cérebro" de George W. Bush, louvado e execrado em proporções semelhantes, e ganhou do chefe o apelido de "flor do estrume" em alusão à planta nascida de dejetos de vacas no Texas, onde fez carreira.
Agora, Karl Rove defende que o Partido Republicano dê lugar à geração que prega os ideais de Ronald Reagan mas que é também mais antenada com a mudança demográfica no país (o avanço do eleitor latino) e a redenção do "conservadorismo com compaixão" de Bush (2001-09).
Rove, que faz 62 anos neste Natal, arquitetou não só a campanha como boa parte da política do republicano nos sete anos que passou na Casa Branca (de 2004 a 2007, como vice-chefe de gabinete).
Criticado pelas posições políticas e admirado pela visão estratégica, continua a ter uma das vozes conservadoras mais ouvidas, seja no "Wall Street Journal", na FoxNews ou em seu grupo de ação política (leia ao lado).
O estrategista, que prefere escrever artigos a responder perguntas, conversou com a Folha por telefone na última quinta - sua primeira entrevista a um veículo brasileiro -, após voltar à FoxNews, onde rejeitara no ar as projeções da reeleição a Barack Obama.
Falou do rumo do partido, do choque fiscal, de verba de campanha, de lembranças da Casa Branca e do xadrez eleitoral para 2016. Os destaques:

*

Qual sua expectativa para o abismo fiscal? Há acordo possível entre governo e oposição?

O acordo é facilmente alcançável se o objetivo do presidente for obter mais receita. Se for arrecadar US$ 800 bilhões em receitas, os republicanos já ofereceram um meio de logo fechar um acordo. Mas está ficando claro que o presidente tem um objetivo mais obtuso, político.

Qual?

Dividir os republicanos na Câmara [que são a maioria]. Ele quer fraturar sua oposição política mais do que quer resolver as coisas. Ele pensa que dessa forma conseguirá realizar mais coisas em seu segundo mandato, acho eu.

E, francamente, ele está vendo o quadro ao contrário, porque se ele fechasse um acordo com os republicanos e se for construído um certo nível de confiança [entre as partes], isso aumentaria sua possibilidade de conquistar apoio majoritário no futuro. Da forma como tem feito, é garantido que ele só vai conseguir atrair ressentimento e ficará muito mais difícil conseguir consensos [com a oposição] no futuro.

Os republicanos serão maioria na Câmara nos próximos dois anos, e a probabilidade de eles manterem essa maioria na segunda metade do segundo mandato de Obama [o mandato na Câmara nos EUA é de dois anos] é alta.

Em toda a história dos EUA, com uma exceção, o partido de oposição conquistou mais cadeiras no segundo mandato. Se ele quiser ter um segundo mandato bem sucedido, ele deveria começar a pensar em um acordo. Em dez anos, o que vai importar mais, se ele conseguiu convencer os republicanos a aumentar as alíquotas dos 2% mais ricos [da população] ou se obtiver um acordo? O acordo é que importa. Ele vai conseguir, de alguma forma, o aumento de impostos que quer, mas não deve conseguir nada além disso. Só ressentimento. E isso não é bom para o país nem para ele.

Para uma parte dos comentaristas políticos, Obama está apostando que a população vai culpar os republicanos caso o país caia no abismo.

E ele está certo, vai mesmo. Mas se no final ele não conseguir uma solução, vão culpá-lo, em última análise. O sucesso dele depende de ser um presidente bem-sucedido. Em algum momento a desculpa de que [a oposição] não quis acompanhá-lo vai se esgotar, as pessoas vão questionar por que ele não aceitou o acordo oferecido. Por que ele foi tão teimoso. E lembre-se que o abismo envolve várias coisas. Se os republicanos cederem no aumento dos impostos para os mais ricos, e as outras coisas que ele quer?

É mesmo inaceitável para os republicanos ceder na questão dos impostos para os mais ricos? A oferta atual é a melhor que eles podem fazer?

Os republicanos já propuseram uma forma de Obama conseguir os US$ 800 bilhões a mais em arrecadação que ele quer. Agora eles estão tentando arrumar um jeito de reduzir a chance de levarem a culpa.

Um deles -- já tem republicanos falando nisso -- é justamente ceder no aumento dos impostos dos 2% mais ricos e não ceder em mais nada, e deixar [Obama] enfrentar as consequências. É uma estratégia razoável, de recuo estratégico.

Outro grupo diz que... A preocupação dos republicanos é, em parte, que metade das pequenas empresas americanas entrarão na faixa mais alta de imposto, segundo a proposta do presidente. Então tem um grupo que está pensando em uma proposta que exclua as empresas dessa tributação. Isso colocaria o presidente em uma posição difícil, porque ele alega que quer que os ricos paguem mais, não que as empresas paguem mais.

O sr. disse que Obama tem forçado a barra em dizer que tem um mandato para subir impostos porque foi reeleito.

Obama foi eleito para o Senado em 2004, mesmo ano em que Bush foi reeleito presidente. Obama, quando senador, achava que era obrigado a concordar com os planos de Bush para reformar a Previdência Social? Não. Ele achava que tinha que apoiar a Guerra no Iraque? Não. Então essa ideia de que os republicanos que foram reeleitos têm de fazer o que ele quer não funciona.

Esse é ponto. Os republicanos reeleitos também acreditam ter um mandato para não subir os impostos, dizem que os eleitores votaram neles por isso. Os dois lados se veem como defensores de um mandato.

Verdade, mas eles de fato têm, em alguma medida. Mas o presidente está dizendo que essa eleição se tratava apenas de subir os impostos para os mais ricos. Uma pesquisa da FoxNews ontem [quarta] mostrou que 57% acha que o problema será resolvido cortando gastos, 18% disseram que será resolvido com impostos e 20% com ambos.

As pessoas são capazes de ter ideias conflitantes, mas para o presidente exigir que tem de ter o que quer porque foi reeleito é não reconhecer como o sistema funciona, e não é o mesmo que ele fez em 2004.

O que o sr. acha que isso diz sobre o segundo mandato de Obama, podemos esperar que ele vá mais para a esquerda?
Sim, ele vai. E vai agir de uma forma mais imperial, como ele disse que queria o direito de aumentar o limite da dívida sozinho [hoje, o Congresso precisa aprovar]. Extraordinário. Se Bush dissesse isso o "New York Times" ia pegar no pé.

Falando sobre a eleição, aliás, o que o sr. acha que a campanha de Obama fez certo e os republicanos fizeram errado?

Em termos de estratégia, Obama disse que queria ajudar a classe média, e que tinha ajudado mantendo as montadoras vivas [Obama socorreu a indústria automotiva em Detroit].

[Mitt] Romney, embora esteja no partido mais identificado com a classe média e que até levou mais votos da classe média [52% a 46%], mas poderia ter feito melhor, acho eu, se tivesse reconhecido com quem estava falando. Isso foi uma vitória tática, e o que a campanha de Obama fez de maneira soberba foi, primeiro, massacrar Romney entre os eleitores indecisos que estavam desapontados com o presidente, abertos a votar em Romney, mas no final decidiram que nenhum dos dois merecia seu voto.

Em apenas seis vezes na história americana o número de votantes na eleição presidencial foi menor do que na eleição anterior [o voto nos EUA não é obrigatório]. Nas outras cinco, foi em períodos de guerra.

Outra coisa que a campanha de Obama fez muito bem foi mirar seus eleitores -- os jovens, as mulheres solteiras, os negros, os latinos -- e animá-los a votar. Ele teve um número um pouco menor de votos do que na eleição passada, mas isso mostra, nesses tempos difíceis, de como é importante mirar na base.

Os republicanos vão investir nisso agora?

Com certeza! Eles já estão tentando entender e copiar.

Quando Bush estava na Casa Branca, e o sr. estava na Casa Branca, ele defendia um tipo de conservadorismo com compaixão [aberto a políticas sociais e empatia com a população] que não se vê mais hoje.

Verdade. Mas acho que muita gente hoje percebe que muito do que Bush fez visava, por exemplo, os latinos, que nós acreditávamos em fazer os EUA melhores para todos, em dar uma chance para quem está embaixo subir.

Sim, mas houve uma rejeição desse tipo de ideia pelo próprio partido. Os pré-candidatos republicanos, mesmo antes da escolha de Romney, não falavam desse assunto.

É, mas dá para ver isso nos governadores republicanos. E acho que nos discursos [do senador] Marco Rubio e do [deputado e ex-candidato a vice] Paul Ryan, na semana passada, isso apareceu, e o [governador de Indiana] Mitch Daniels fez um ótimo discurso a esse respeito recentemente.

O sr. acha então que os republicanos vão voltar para esse discurso conservador mais empático nos próximos anos?

Acho. Acho, sim.

E quem o sr. gostaria de assessorar na eleição presidencial em 2016?

É cedo para decidir e cedo demais para revelar. Estou esperando para ver como essas pessoas se saem, como todo mundo está.

O sr. tem citado [em colunas e comentários] alguns nomes como possíveis pré-candidatos, e a maioria deles é de caras mais novas no partido. O que há de comum entre nomes como Rubio, Ryan, [a governadora do Novo México] Susana Martinez, [o de Nova Jersey] Chris Christie? O que eles têm de diferente da última geração de republicanas?

Eles sabem reconhecer pontos de sucesso dos anos Reagan [1981-89] mas admitem que precisamos aplicar os princípios de nosso partido e aplicá-los à nova realidade do país.

E do lado democrata, o que o sr. vê? Hillary Clinton voltou a dizer nesta semana que não pretende candidata.

Ela tem bastante tempo para mudar de ideia. Mas mesmo que ela concorra, acho que há vários democratas que podem estar interessados em desafiá-la. Há espaço. E há tempo.

Que nomes o sr. vê em ascensão entre os democratas?

O do governador [Martin] O'Maley, de Maryland, o do governador [Andrew] Cuomo, de Nova York, e outros devem surgir.

O sr. fundou os grupos de ação política American Crossroads e o Crossroads GPS. As críticas em relação a esse tipo de grupo, sobretudo nesta eleição, que é a primeira desde que a Suprema Corte liberou os limites de doações para eles em 2010, têm crescido muito. O que esse tipo de grupo traz de bom e de ruim para a política?

A gente formou o Crossroads porque os democratas fazem isso há décadas, e eu e [o es-presidente do Partido Republicano] Ed Gillespie conversamos e chegamos à conclusão de que estávamos cansados de brigar com uma mão amarrada nas costas.

Em 2004, os democratas tinham um grupo chamado Americans Coming Together, para o qual Goerge Soros deu US$ 37,5 milhões, e eles gastaram US$ 124 milhões a mais. Ainda assim, vencemos.

O ponto é que isso ajudou os democratas por muito tempo, e nós resolvemos parar de reclamar e copiá-los. Mas a mídia liberal sempre ficou quieta sobre esse assunto, até que os conservadores começassem a fazer também.

O sr. está realmente dizendo que é uma questão de equilíbrio?

Claro que é. Os sindicatos gastaram US$ 400 milhões em campanhas pelo presidente Obama em 2008. Tínhamos de ter um contrapeso.

Ok, mas se não houvesse uma contraparte democrata. O sr. acha que esse tipo de iniciativa faz bem para a campanha ou o melhor seria que nenhum dos lados a lançasse?

Olha, a gente pode discutir qual sistema é melhor, mas este é o sistema que temos. Eu preciso desligar.

Última pergunta. Qual sua melhor lembrança da Casa Branca e qual a pior?

Não é uma pergunta simples. A pior, acho, foi o [dia dos atentados do] 11 de Setembro [em 2001]. A melhor foi os dias que vieram logo depois, quando vimos um líder [Bush] se erguer à altura dos acontecimentos, como o momento pedia. Informações Folha de São Paulo.

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